ARTIGO: Demonização dos reservatórios, um erro perfeito

Francisco Luiz Sibut Gomide (*)

Dentre os erros cometidos de forma desnecessária e sem qualquer base racional, convencionaram-se chamar de “erros perfeitos” aqueles que são difíceis de corrigir. É o caso da oposição à implantação de reservatórios de água, erro originado em países desenvolvidos e alegremente recepcionado por pessoas desinformadas distribuídas pelo mundo afora.

Reservatórios têm uma história de sucesso de mais de quatro mil anos como único instrumento disponível para controlarem-se os extremos do ciclo hidrológico. Apesar disso, nos últimos quarenta anos, a implantação de reservatórios vem sendo atacada por organizações e grupos de indivíduos equivocados. Apesar de errados, desnecessários e irracionais, esses ataques criaram fortes convicções e, ainda que não tenham conquistado muitas mentes, certamente conquistaram muitos corações.

Para ilustrar que a demonização dos reservatórios tornou-se um erro difícil de corrigir, basta notar o cuidado excepcional tomado pelos adeptos do “politicamente correto” para não listar hidroeletricidade entre as formas de energia renovável: “Apoiamos a geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis, como eólica e solar”, dizem eles, economizando palavras e ideias.

A tentativa de demonização de reservatórios estendeu-se automaticamente às obras de retenção (barragens) que os criam e às obras hidráulicas a elas associadas no processo de conversão ótima do armazenamento de água em benefícios para os seres humanos.

Esses benefícios não são poucos, começando pela regularização de vazões para o abastecimento doméstico, comercial e industrial de água e para o saneamento básico, o controle de cheias e a mitigação de estiagens. Reservatórios e suas barragens possibilitam também a geração de energia elétrica limpa e renovável, a irrigação e a navegação. E ainda a piscicultura e a recreação.

É inaceitável que essa oposição irracional a obras hidráulicas tenha progredido tanto em um país como o Brasil, dotado de imensas riquezas naturais, exuberantes recursos hídricos e ao mesmo tempo, enormes carências infra estruturais e desigualdade social.

Aparentemente, a intenção inicial era fomentar a oposição à construção de usinas hidroelétricas. No entanto, considerando a dificuldade de criticar uma forma tão barata e natural de gerar eletricidade, limpa, renovável e baseada em tecnologia estabelecida, esses estrategistas do atraso tiveram a infeliz ideia de atacar o que consideram o calcanhar de Aquiles da hidroeletricidade: o reservatório.

O Setor Elétrico Brasileiro (SEB) implantou o Sistema Interligado Nacional (SIN) para tirar proveito da diversidade hidrológica característica do regime de chuvas do país. Foram décadas de planejamento e investimentos em um robusto sistema de transmissão de energia em alta tensão que possibilita a operação integrada de todas as usinas elétricas do país e que minimiza o armazenamento total requerido.

Probabilisticamente falando, esse armazenamento total de energia é proporcional ao desvio padrão da soma de todas as afluências de energia às respectivas usinas. Assim, energias que não podem ser armazenadas, como eólicas, solares e hidráulicas a fio de água aumentam o desvio padrão da soma das afluências, mas não aumentam o armazenamento total: tiram vantagem do sistema integrado sem necessariamente compensá-lo.

Assim, ironicamente, quando investimos em energia eólica e solar, aumentamos a necessidade de implantar reservatórios de água para “firmar” a produção total de energia elétrica a partir de fontes renováveis. Além de indispensáveis, reservatórios podem também compensar diretamente a intermitência inevitável das usinas eólicas e solares, funcionando como gigantescas baterias, acopladas a usinas reversíveis.

Também ironicamente, a eventual ocorrência de mudanças climáticas, por aumentarem o desvio padrão das afluências pela exacerbação dos extremos do ciclo hidrológico, demandará que se aumente o armazenamento total do sistema. Em suma, apesar das tentativas de demonização, precisamos de mais reservatórios.

(*) Ph.D, professor titular UFPR, ex-ministro de Minas e Energia

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